domingo, 26 de junho de 2011

Reportagem em ANGOLA com FUTEBOL e MORTE


A 1ª página do "Record" sobre a tragédia

Angola 1991. Regresso a África. Em paz e como civil. Julgava eu mas estava enganado. Fui em trabalho, fazer a reportagem de dois jogos de futebol entre Angola e a selecção de Sub-21 de Portugal. Aquele novel país africano comemorava os seus tenros 16 anos de independência entre uma terrível guerra civil. Uma breve e delicada paz coincidiu com este período da nossa deslocação a Angola. A destruição e a morte entre o MPLA apoiado por Cuba e a UNITA com a ajuda da África do Sul desenrolava-se há anos e continuaria anos depois. Ao abrir-se a porta do avião respirei de novo o calor húmido e sufocante de África. A comitiva portuguesa, liderada pelo eng. Azevedo Félix e Paes do Amaral, ambos vice-presidente da Federação Portuguesa de Futebol, foi excelentemente recebida pelo comandante França, um conhecido ex-guerrilheiro que deu uns toques no Sporting antes de eclodir a Guerra Colonial. 
Muitos jogadores famosos na equipa portuguesa: Brassard, Nelson, Abel Xavier, Valido, Paulo Torres, Hélder, Secretário, João Pinto, Filipe, Paulo Alves, Gil, Paiva, João Pires, Amaral, Mário Jorge, Tó Ferreira, quase todos eles campeões mundiais de sub-20 em Riad, Arábia Saudita (1989) e Lisboa (1991). 
A minha foto de enviado-especial à "confusão"

De Luanda fomos para o Humabo, a antiga Nova Lisboa, naquela altura a frente de guerra mais sangrenta do mortífero conflito angolano. A cidade encontrava-se praticamente destruída em cerca de 70-80 por cento. Os dois poderosos exércitos encontravam-se frente a frente. Passeis diversas vezes pela frente das bocas dos canhões dos tanques T-72, dos canhões, dos canos múltiplos dos temíveis "órgãos de Estaline" ou "katiuscha". Corri toda a cidade com os meu camaradas de profissão Carlos Rias e João Afonso. Víamos pouco mais que ruínas. Até o Clube dos Ferroviários, que fora um dos lugares preferidos da elite antes da independência estava em muito mau estado devido aos furiosos combates que ali se verificaram. 
Durantes o Angola-Portugal, no Huambo, o estádio fervilhava de gente ávida de ver uma equipa portuguesa. A garotada, e não só, trepava pelos muros do estádio, pendurava-se no autocarro, mesmo com a Polícia a vergastá-los e a disparar armas para o ar. 
Depois do jogo uma trovoada deixou a cidade na mais completa escuridão. Eu precisava de mandar a reportagem para Lisboa. No meio daquelas ruínas seria um milagre encontrar algo que funcionasse. Encontrei. Um velho português dos tempos coloniais, com uma loja de moderníssimas moto 4 aberta era um oásis no deserto. Mandei o trabalho através de um último modelo de faxe. Ironias da guerra. De todas as guerras. Há sempre um pouco de vida entre tanta morte.
 A 1ª página do "Record" com um morto do tiroteio

Vinha para a pensão sem qualquer condições onde nos encontrávamos hospedados, às escuras, sem ver um palmo à frente dos olhos, quando me lembrei que aquele espaço de terra revolvida devia estar minado. Aí valeu-me a experiência militar e com a caneta fui "picando" o terreno à minha frente. Por duas vezes a caneta da qual dependia a minha vida encontrou "alguma coisa". Desviei-me. Demorei três ou quatro horas para percorrer menos de um quilómetro. 
O hotel tinha uma discoteca aberta. Onde há guerra há mulheres. Muitos militares angolanos e civis a conviverem com os elementos da comitiva portuguesa. Encontrei um capitão do MPLA que tinha sido cabo do Exército Português na Guerra Colonial. Conversámos durante muito tempo, amiúde interrompidos por esbeltas negras que convidavam para o "truca-truca" sem qualquer rodeio. 
No dia seguinte dei uma última volta pela cidade. Com uma estranha companhia. Um piloto de helicópteros russos que apoiavam o MPLA. Fartá-mo-nos de falar. Uma "conversa" de doidos. Só percebia "Yuran", "Kulkov", "Mostovoi", três compatriotas dele que na altura actuavam no Benfica. Mostrou-me o helicóptero Kamov e como funcionava. Agradeci-lhe. 
De volta a Luanda, o velho Boeing 737 borregou por três vezes a descolagem. Por pouco não se espatifava na floresta no final da pista. A rodear o traço de alcatrão viam-se inúmeros "cadáveres" de aviões e helicópteros vítimas da guerra civil. O superlotado Boeing com mulheres com cestos à cabeça, miúdos às costas, cabras e galinhas histéricas era uma cena digna de um filme de Felini. Os pilotos riam-se e acenavam para os mecânicos (seriam?) enfiados no capot de um dos reactores. Os gestos entre eles não auguravam nada de bom para o voo. Aí sentei-me, entreguei a alma ao Criador, eu que até nem sou crente, agarrei uma escultural hospedeira e como ela simpatizou comigo deu-me uma garrafa de uísque. Emborquei metade quase de um trago. Se fosse desta para melhor pelo menos ia satisfeito e "alegre". 
À quarta tentativa o avião levantou. Sabe-se lá como. Aos soluços e aos solavancos lá chegámos a Luanda. 

A minha foto e uma foto do jogo, com Filipe na imagem

Aí estávamos muito melhor instalados. 
Dei umas belas voltas pela Cidadela, Bairro de Alvalade, Ilha, Mussulo e até me enfiei pelos intermináveis musseques, guiado por um condutor de um "chapa" com menos juízo que eu... 
Aí verifiquei a terrível desigualdade entre o faustoso Palácio do Futungo de Belas, residência do presidente José Eduardo dos Santos, e os miseráveis que se arrastavam pelos mercados Roque Santeiro e Fim do Mundo. Um pecado original do qual Angola demorará muito tempo a redimir-se. 
No segundo jogo a tragédia aconteceu. E poderia ter sido muito pior. Decorria o encontro há poucos minutos quando ouvi o familiar matraquear de uma AK-47 dentro do estádio. Segundos depois o tiroteio aumentou de intensidade proveniente de várias armas. A minha reacção foi proteger-me atrás de um muro, como qualquer ex-militar o faria. Os meus colegas continuavam sentados e desprotegidos. "Vocês estiveram na tropa, caraças?", perguntei-lhes. Ouvia as balas a estrelejarem ao baterem nas bancadas de cimento do velho Estádio dos Coqueiros. "Não", responderam-me. "Baixem-se, seus car@lhos, se não vão com os porcos", berrei-lhes. Encontrava-me nos velhos tempos da tropa e isso manteve-me sempre alerta com o evoluir dos acontecimentos.
Os jogadores portugueses preocupavam-se. Os angolanos, habituados à guerra, deitaram-se todos no relvado. Desci as escadas a correr para ir ter com os jogadores nacionais. O Brassard, o Paulo Torres, o Valido e o Hélder não foram atingidos por mero acaso. Estavam na linha de fogo quando se iniciou o tiroteio e não morreram por acaso. Eu era o único português com experiência militar entre a comitiva. Mandei os jogadores para o buraco do banco dos suplentes, afastei os dirigentes portugueses e falei com o comandante das forças angolanas presentes no estádio. 
As páginas interiores da reportagem e um 25 de Abril desconhecido...

Um homem estava morto no chão e havia vários feridos. O comandante das forças da ordem e o presidente da Federação Angolana de Futebol garantiram-me que o incidente estava sanado. "Ok, então vamos esperar meia hora para ver se está tudo calmo". Na altura eu era o "general" intermediário entre portugueses e angolanos. O comandante angolano puxou-me para o lado e disse-me que o trágico incidente tinha sido originado por um Polícia Militar angolano que não gostou de ser revistado à entrada do estádio por elementos de uma unidade rival e sacou a espingarda-metralhadora AK-47 das mãos de um compatriota e começou a disprar sobre tudo e todos aaté ser abatidos por outros militares presentes. 
O presidente da Federação Angolana de Futebol pediu-me por tudo para não publicar os incidentes na reportagem mas eu respondi-lhe que como jornalista era obrigado a fazê-lo. Ele compreendeu e todos me trataram com a maior urbanidade. E o jogo lá recomeçou com uma bola ao solo. São estranhas e frias estas regras do Futebol.
À noite regressámos a Lisboa. No avião, a adrenalina descarregou e depois de comer bem e beber melhor adormeci tão profundamente que a hospedeira teve de me acordar já a aeronave aterrara e quase toda a gente saíra. 
África proporcionara-me mais uma aventura inesquecível No entanto, os angolanos foram impecáveis comigo e no meio de todas aquelas peripécias ainda nos divertimos imenso. Especialmente no Mussulo...(Segredo de estado...)

sexta-feira, 24 de junho de 2011

PORTUGAL com ou sem TROIKA !


Portugal está em crise? Alguém fora da corte do último ex-primeiro-ministro  duvida? Porquê? Há falta de produtividade? A culpa é dos patrões? É dos empregados? É da falta de matéria-prima? Ou será do calendário? Bem, em Janeiro, início dos anos desde que o Papa Gregório XIII acabou com os resquícios do calendário Juliano, implantado pelo imperador Júlio César em 46 A.C. e modificado pelo seu sucessor Augusto em 8 D.C. Os romanos eram muito instáveis com o tempo e particularmente com os nomes dos meses. De todas estas mudanças subsistem ainda algumas diferenças temporais de que resulta uma diferença de 13 dias entre os calendários ortodoxos e os católicos, anglicanos, protestantes, etc. Hoje é 24 de Junho, penso eu que nunca sei às quantas ando, enquanto no calendário juliano (ortodoxo) é dia 11 de Junho...Ainda faltam, portanto, dois dias para os ortodoxos comemorarem o Santo António...
Deixemos estes pormenores de somenos importância e vamos aos factos concretos. Dizia eu que em Janeiro é o regresso ao trabalho, o tempo dos grandes planos para o novo ano, a elaboração de projectos pessoais e profissionais e, já agora, a marcação das férias. Ano novo vida nova. Será? 
Excepto às segundas-feiras em que o pessoal ainda digere os resultados da última jornada dos campeonatos de futebol, a malta ainda lá vai mexendo nos papéis enquanto dá uma espreitadela no Facebook para dar uma piada às tipas mais giras adicionadas (ou vice-versa), faz uma colheita no Farmville ou ergue novos edifícios no Cityville. Já lá vai o tempo em que o funcionalismo se enfiava nas retretes a ler "A Bola", o "Record", a "Caras" ou a "TV Guia". Pelo meio há sempre umas mensagens de telemóvel para mandar aos descendentes, aos ascendentes, aos amigos, às amigas, aos mais ou menos conhecidos, ao último engate, à última conquista, à empregada para saber se deu comer ao gato ou se levaram o cão à rua, se a sogra ainda está viva ou se o banco não pode esperar mais um bocadinho para se recompor o saldo negativo. 
Há a hora do café. Quem consegue trabalhar sem essa poção mágica? Mais dois, três ou quatro dedos de conversa...
Eh lá, como o tempo passou tão depressa. Já é hora de almoço. Uns, poucos, trazem uma bucha de casa, outros contentam-se com um croquete e um galão ou uma cerveja que o raio da prestação da casa, do carro, do cartão de crédito, do colégio da pequenada, do LCD, do portátil, das férias, dos sapatos, da moda de Inverno e dos saldos não permite banquetes. No entanto, as tascas e os restaurantes que escaparam por pouco à ditadura da ASAE enchem-se de "bons garfos" que não sobrevivem sem o grão com mão de vaca, a dobrada, o cozido à portuguesa, o rancho à minhota, a mousse de chocolate, o omnipresente molotov, a litrada de tinto, a aguardente velha e a bica. Elas, sobretudo, preocupadas com a "linha", debicam aquelas comidas de passarinho tipo saladas e vegetarianices ensopadas em copos de água. 
A tarde é quase um pró-forma presencial nas empresas. Antes e depois do "break" para o café reanimam-se os telemóveis, o MSN, o Facebook para se combinar tudo e mais alguma coisa, desde quem vai buscar os putos ao colégio ou qual o filme da noite, que às segunda-feiras no cinema é mais barato.
Passado o mês de Janeiro nesta rotineira rotina aproxima-se o Carnaval, a neve na Serra da Estrela, as folias tradicionais de Torres Vedras e outras milhentas cidades, vilas e aldeias... Uma semana antes e uma semana depois do Entrudo a produção desce quase a zero, não só pelos dias fora da residência habitual mas também para mostrar as fotos no telemóvel, nas pens, nas redes sociais, etc. 
Ainda o ritmo de trabalho não reatou a sua normalidade (alguma vez a atinge?...) já se fazem planos para a Páscoa. A Semana Santa é o climax de uma Quaresma que ninguém cumpre religiosamente mas nunca falha civilmente. Até os judeus, muçulmanos, hindus e outros que tais vão na onda. Muitos aproveitam para colar três ou quatro dias ao dia em que crucificaram Jesus Cristo ou ao dia em que Ressuscitou, et voilá, cumpre-se o primeiro período de férias. E também o subsídio salvador de tantas economias caseiras. No entretanto, voltaram as competições europeias de futebol e com jogos às terças, quartas e quintas-feiras há que zarpar o mais depressa possível da "escravatura" para fora e apoiar o SLB, o SCP, o FCP, o Cristiano Ronaldo, o José Mourinho e também não se podem esquecer os embates da Selecção Nacional, ora essa. 
A política não fica de fora das empresas. É a época alta das manifestações. Normalmente vem para a rua os aficionados da CGTP, da UGT, dos TSD, as diversas classes profissionais apresentam-se à(s) greve(s), agora reforçadas com várias "gerações à rasca", "acampados", "insurgentes", todas as franjas contestatárias da sociedade e alvejam-se os políticos, todos uns corruptos e umas sanguessugas do Estado. O que até é verdade, diga-se de passagem. 
Felizmente chegou o 25 de Abril. Por causa da Liberdade? Qual quê. É mais uma ponte. Nova oportunidade para umas sortidas pelo País. A migração inclina perigosamente Portugal para o Algarve e o feriado do 1º de Maio já está aí à porta. Uma segunda vaga move-se para o Litoral enquanto uns crentes iludidos que vivem em Democracia festejam o Dia do Trabalhador com o...descanso.
Na primeira semana de Maio, ufff, o regresso à empresa. Que sossego depois do stress das pontes e viadutos do 25 de Abril e do 1º de Maio. Mais fotos de telemóvel, pens, redes sociais para mostrar e colocar à vista dos amigos do Face, Orkut, Hi5 e outras montras da vida privada. Os dias são maiores, às 17 horas o grosso da massa trabalhadora esgotada pelas interrupções laborais têm agora concertos do pimba arrasa corações Tony Carreira ou levam uma tampa da embriagada Amy Winehouse (faz jus ao nome artístico...), isto se a Ivete Sangalo não vier cá pela milésima vez ou o Elton John pela milionésima vez. 
A afã nas empresas em Maio aumenta com o desfolhar dos dias. Mais trabalho? Não propriamente. Vem aí Junho, os Santos Populares, os feriados nacionais e municipais, os santos populares, as férias. As tão desejadas férias depois da trabalheira de tantas pontes e feriados. 
Julho, Agosto e Setembro não contam para a produtividade. Só para o Totobola. Metade do people vai de férias e outra metade fica na paz e no sossego das empresas semi-vazias, sem chefes a controlar e a chatear. Discutem-se as transferências estivais dos clubes de futebol, os festivais de música de Verão, o bronze, as roupas leves, os bikinis e os fatos de banho e o ponto da situação dos incêndios que anualmente riscam Portugal como um fósforo. Há ainda uns truques e malabarismos que se podem fazer com o feriado do 15 de Agosto, não é verdade? 
Setembro chegou, vamo-nos separar...Alto isto era uma música do Duo Ouro negro que me deixava deprimido sempre que a ouvia. Era um "aviso" que vinham aí as aulas...Voltemos ao mês de Setembro. Arriba a massa trabalhadora estoirada das férias, mais fotos de telemóveis, pens...bolas, não vou repetir isto outra vez...É o regresso às aulas. Sai-se mais cedo do trabalho por causa dos livros, das mochilas, da roupa da pequenada para o novo ano lectivo, a logística do leva e trás dos alunos, o reconhecimento da escola, horários, quem transporta a(s) criancinha(s). Uma trabalheira fora do trabalho...  
A malta só não dá em doida porque o 5 de Outubro surge oportunamente para desanuviar. Abençoada revolução republicana que salva a população activa do esgotamento. E felizmente voltou o Futebol, os jogos escaldantes, as greves, as manifestações, os concertos, os filmes de estreia como fuga de escape à meia dúzia de horas nos campos de concentração empresariais...
Já mais mortos que vivos, os escravos do século XXI recuperam energias no dia 1 de Novembro em que todos-os-santos ajudam a massa laboral a sobreviver até ao final do ano. No entanto, é tempo das gripes suínas, das galinhas, dos sapos, das abetardas, etc., dá para umas baixas e deitar um olho às montras de Natal, que entretanto as ruas já estão iluminadas a lembrar que falta pouco para o Pai Natal descer pelas chaminés, condutas de  ares condicionados, salamandras, etc. 
1 de Dezembro. Uau. Restaura-se a alegria de viver com mais intensidade com que os Conjurados restauraram a Independência de Portugal. Os centros comerciais rebentam pelas costuras, os cartões de crédito escaldam, os sacos de compras superam em número a população portuguesa. Dá-se um saltinho à empresa. De fugida. Alguns companheiros de trabalho já não se vêem desde Maio...Como? Leia outra vez o texto...Abençoado feriado de 8 de Dezembro que nos restabelece da lufa-lufa do 1 de Dezembro. É Natal..É Natal...djingo bell...djingo bell...24 é tolerância de ponto não vá a malta não ter tempo de arranjar bacalhau e couves para a consoada. Prendas, surpresas, votos de boas festas aos amigos e aos nem por isso. As redes móveis vão-se abaixo com tanta manifestação de amor e carinho quando pouco antes era crítica sibilina e língua viperina...É só por uns dias. Depois a hipocrisia, a má-educação e o cinismo voltam ao normal. Empaturrados em filhós, sonhos, fatias paridas, bolo-rei e outras conventualidades o pessoal enfartado, com olheiras, fígados inchados engalanam-se para o Fim do Ano. Um ano extenuante ! 3,2,1...Ding-dong e 12 passas para mais 365 (ou 366 se for um ano cruelmente longo) dias de trabalho. Ou nem por isso? 
A troika? Desculpem lá mas estou de ponte do Corpo de Deus e/ou do São João. Voltem noutra altura mas atenção ao calendário, se faz favor. Obrigado!


quinta-feira, 23 de junho de 2011

Um "salto" à TARZAN !


Há uns anos, uma amiga minha cabeleireira, a Cristina, ofereceu-me um gato. O Tarzan. Era amarelo tigrado e quando atingiu a idade adulta ficou uma cópia perfeita, peluda e bigududa, do celebérrimo Garfield. A "coisa" com a Cristina ficou tremida quando ela começou a aparecer com uma amiga monumental e como um Homem não é de ferro, e eu muito menos, tudo se complicou. Mas fiquei com o gato. O meu saudoso Tarzan. Uma noite, aqui no período áureo do Lote 69, encontrava-me muito bem acompanhado com uma vizinha que há pouco se transferira para este movimentado prédio. Música excelente de Alice Cooper, uísques velhos, chocolates, meia média-luz, sofá enorme e fofo. Ambiente perfeito. Uma noite para recordar. A (ainda) vizinha e eu estávamos na mesma onda na nossa primeira noite. Não tardou que, após as carícias nas mãos e nos belíssimos cabelos loiros longos e ondulados, os lábios se tocassem. O sabor a chocolate acentuava a doçura dos beijos, ternos, primeiro, mais efusivos, depois. O normal. Eis senão quando, ao beijá-la com os olhos fechados para estimular ao máximo os sentido, comecei a sentir uns pêlos no rosto e também na boca. Mau, pensei para comigo, teria a minha companhia uma pele tão peluda? Não podia ser. Uma segunda língua, muito áspera, lambeu-me os queixos. Ai...ai...ai...Aí abri os olhos. Ela não me podia ter enganado daquele modo. E não o fizera. Deparei-me com os olhos grandes e amarelos do Tarzan, empoleirado nas costas do sofá. Atraído pelo cheiro do chocolate, o meu guloso gatão veio investigar e saborear o dono, interrompendo a magia de uma noite até aí inesquecível. Larguei, a muito custo claro, a minha companheira desses momentos divinos, peguei no Tarzan e coloquei-o no seu local preferido: o parapeito da janela da sala de jantar. 
Posto o felino no seu devido lugar, voltei para junto da minha (nessa altura) querida vizinha, disposto a recomeçar os jogos de sedução até aí magníficos de parte a parte. Já avançáramos uns capítulos na intimidade quando fomos interrompidos por novo contratempo. Descolei os lábios dela. Ouvia, vindo do parapeito da janela, um arranhar com uma rapidez anormal e um miado baixo, aflitivo. Dei um salto até à janela e o meu rico e amado Tarzan já ia escorregando pela fachada do prédio. A queda trágica era certa. Ainda lhe deitei a mão mas só lhe toquei de raspão numa orelha. Aflito, vi o Tarzan despenhar-se na escuridão da noite do 5º andar onde moro. Ainda mais preocupado fiquei porque na vertical daquela janela é a entrada do prédio em cimento, um pouco afastada nos jardim relvado que existe ao lado. Enfiei umas calças muito rapidamente e nem apanhei o elevador. Desci a escada o mais depressa que pude, imaginando o meu Tarzan esmagado no empedrado. Cheguei à rua e não vi o gato no local onde esperava encontrá-lo já no paraíso dos felinos. Procurei em vários locais e nada de Tarzan. Vieram-me as lágrimas aos olhos. Perdera o meu inseparável bichinho de estimação. 
De repente, na negritude da madrugada, ouvi um ligeiro ruído oriundo de um canteiro de flores na outra ponta do prédio. Fui até lá e não queria acreditar. O meu Tarzan, de cauda empinada, deliciava-se a cheirar as flores e roçava-se nos ramos mais fortes. Aproximei-me e peguei nele ao colo. Estiquei-lhe uma pata de cada vez, rodei-lhe o pescoço para os dois lados, apalpei-lhe as costelas, abri-lhe a boca, verifiquei-lhe os dentes e puxei-lhe a cauda. O Tarzan estava vivo e de perfeita saúde. Uma das sete vidas fora gasta um tanto por minha culpa. Aposto que algum morcego passara perto da janela e ele "esqueceu-se" do lugar onde se encontrava. 
Viemos felizes de volta a casa. O meu bichano ganhou uma ração suplementar. A minha companheira dessa noite também foi contemplada...e contemplou-me. Como? Este capítulo não interessa. O importante foi o Tarzan salvar-se!

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Distracção ou algo pior?


Que sou distraído já eu tinha dado por isso.  Desde que nasci. Na escola primária, por exemplo,  deleitava-me a  olhar para as moscas a voar aos ziguezagues, o que me valia algumas réguadas da professora Ermelinda, primeiro,  e depois do professor Cancela, o tal das lojas dos móveis com o mesmo nome. Nas minhas distracções actuais, às vezes o que é para meter no frigorífico  enfio  na dispensa (e vice-versa). Também  não são poucas as vezes que me esqueço de fechar a porta da rua ou deixo as chaves do lado de fora. Felizmente os meus gatos (e não só) guardam a casa...
Hoje, antes de sair, fui ao spray do desodorizante para dar um cheirinho agradável aqui ao mocinho. Pufff! Pufff! e ala para a rua. Ia no elevador e notava um cheiro esquisito. Cheirava-me a canteiros de flores ou a ervas daninhas, um odor um bocado enjoativo que se colou à t-shirt e não me largava,  nem largou,  até que, horas depois, despi a roupa. 
Só então reparei que o cheiro que tanto me incomodava não era originado pelo spray desodorizante que normalmente uso mas sim pelo ambientador que utilizo para atenuar o odor do caixote das necessidades dos gatos...Espero que seja apenas distracção e não o amigo Alzheimer a bater-me à porta...

domingo, 19 de junho de 2011

"A SOGRA" começava assim...



Voltas e mais voltas na cama. Os olhos da mulher irrequieta sobre o colchão, semicerrados na escuridão do quarto, ora se fixam na penumbra aveludada da janela, ora se perdem no negrume do ambiente que nem as paredes brancas consegue atenuar. Quase três horas da madrugada, indicam os dígitos vermelhos do relógio de sentinela na mesa-de-cabeceira. Números presenciais de uma insónia cúmplice entre o aparelho temporal e ela. A mulher estacionou os olhos por longos minutos naquele farol compassado que avança pelas horas fora. Decide-se. Empurra, com um gesto brusco e enfadado, o lençol de seda, creme, e o edredão estampado, negro e branco, para cima do marido adormecido. Apalpara-o na esperança de despertá-lo. Nem sinal de vida da cabeça ao sexo. Encolheu os ombros, conformada. Tacteia o roupão fino, dobrado sobre o estreito sofá, ao lado da cama. Já em pé sobre o fofo tapete enverga-o sobre a pele nua. Sai do quarto apressadamente como se estivesse sem o ar suficiente para se manter neste Mundo com vida. Antes de deixar a divisão espaçosa, agora a comprimir-se à sua volta como uma garra poderosa em torno de uma frágil presa, suspira profundamente. Atira os cabelos compridos para fora do roupão e praguejou baixinho ao tentar encontrar o puxador da porta. Apenas o ressonar compassado do marido lhe responde. Amaldiçoa-o sem palavras. Ao sair para o corredor, Sílvia sente-se como um animal em cativeiro devolvido à liberdade. Inspira com sofreguidão e o peito sobe no seu corpo e espreita para fora do roupão. Dirige-se para a sala. Liga um pequeno candeeiro de mesa. A luz fraca realça a alvura da sua pele, a qual contrasta violentamente com o azul ultramarino do roupão. Tira um copo do bar e enche-o de licor de uísque. Adiciona-lhe duas pedras de gelo. Envolve a base do copo com um guardanapo de papel vermelho. Estira-se no longo sofá de pele. Negro. O roupão desliza quando ela se aconchega numa posição fetal, um cotovelo apoiado no braço do sofá como os romanos em orgias ou banquetes, e descobre-lhe as pernas e um dos seios. Pousa o copo na carpete persa e aponta o comando ao televisor. Percorre vários canais e, por fim, tenta prestar atenção às figuras que se contorcem em movimentos de prazer no ecrã. 

O último comboio da Linha de Sintra, com partida do Rossio, cortava a noite como uma tesoura de alfaiate vai avançando, decidida pela mão firme que a dirige, pelo tecido. A luz fraca da carruagem da frente da composição quadrimotora ilumina pouco menos que os riscos de aço paralelos engolidos pelos rodados sôfregos de via. Poucos passageiros ocupam os bancos quando os ponteiros do relógio quase tocam as três da madrugada. Alguns jovens, rapazes e raparigas, são os mais exuberantes. Nativos suburbanos por excelência acabam de dar uma volta rápida pelos bares do Bairro Alto não muito concorridos num dia de semana. “Bué da loucos” com uns “shots” e umas cervejas compradas nas lojas de conveniência, mais em conta, antes de entrarem no mundo pluricolor dos espaços ribombantes de música mais ou menos “hard”. São horas de “bazar” para casa que amanhã, ou dentro de horas, é tempo de escola secundária. Uma das garotas, magra e loira, deixa o rapaz a seu lado, moreno e alto, sem fôlego com intermináveis beijo na boca. A amiga, mulata, não se interessa por nenhum dos cinco rapazes que completam o grupo. Apesar do assédio descarado ou implícito dos miúdos fascinados pela beleza exótica da rapariga. Dormitam os mais velhos, cabeça oscilando ritmada pelos balanços do comboio. Quatro maduros da “ferrugem” batem uma suecada sonora de comentários, ora de euforia ora de fúria com as asneiras do parceiro. Cada um considera-se o melhor jogador do Mundo e olham para todos os outros como idiotas chapados. Dois polícias percorrem os corredores, com aquele ar marcial sob o chapéu de “baseball”. As mãos atrás das costas são o seu suplemento de autoridade. A destoar do cenário nocturno, uma senhora, na casa dos sessenta, aparentava um ar de tia-avó saída de uma festa do “jet-set”. 

PS-Ainda não sei se vou terminar o romance...Que acham? 

sexta-feira, 17 de junho de 2011

A "menina" da TV CABO !


Nos intervalos dos meus casamentos e das uniões de facto havia umas "visitas" que passavam a noite de minha casa. A minha mãe, que tinha (e tem) a chave da minha  casa quando vinha (já não vem) até ao meu lar doce lar fartava-se de encontrar desconhecidas (para ela). Às vezes confundia-as e trocava-lhes os nomes, mas isso compreendo-a porque até a mim, por vezes, me acontecia o mesmo. "Ó, filho, por que não assentas com Fulana ou Beltrana?", perguntava-me amiúde. "Estou (as)sentado", brincava com ela, sem ligar aos mil e um conselhos que me dava na esperança de encontrar sempre a mesma pessoa em minha casa e não uma surpresa cada vez que entrava pela porta dentro. 
Uma manhã, lá veio ela com o meu pai, por volta das 11 horas, estava eu ainda no primeiro sono. Só ouvia uns zuns-zuns imperceptíveis da voz dela no meu quarto. Pensou que eu estava sozinho sob o edredon. Não estava. A Paulinha encontrava-se tão enroscada ao meu corpo que parecia-mos apenas um corpo na cama. Quando ela levantou a cabeça da almofada. com os longos cabelos loiros encaracolados desgrenhados,  para espreitar quem estava a invadir a nossa intimidade, ouvi, ao longe, a voz da minha mãe perguntar: "Quem é esta menina?"... 
"É uma menina da TV Cabo que veio fazer a instalação da Sport tv", respondi-lhe. 
Acho que a minha mãe não acreditou...
E a Paulinha deu-me uma valente palmada! Adormeci outra vez...
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PS-"Mais-que-tudo", se vieres cuscar no meu blogue não leves estas "historietas" a sério. Eu gosto é de ti ! :P

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Um(a) "MOKKA(DA)" na Ditadura !


Nos anos 70, o Liceu Passos Manuel tinha equipas de Andebol que disputavam os campeonatos Regionais de Lisboa e os Nacionais, quando conseguia o apuramento para esta fase. O ALPA, como eram conhecidas as equipas do liceu, chegou a sagrar-se campeão regional da I Divisão, batendo uma fabulosa equipa do Belenenses, onde sobressaíam os irmãos Mendes. Em 1970, houve uma cisão nas equipas de juniores e os "revoltosos", entre os quais eu, formámos a equipa C do Liceu Passos Manuel. Todos nós, os "rejeitados" do sistema, éramos não só companheiros de equipa mas também grandes amigos, amizade que ainda hoje se mantém entre os sobreviventes. Actuavam nesse "dream team", eu, o Castanheira (falecido aos 19 anos num desastre de automóvel), o Carvalho, o Nuno (faleceu por doença há meia dúzia de anos), os dois irmãos Graça, o Rodrigues, o Vítor "Conas", o Parracho, o Jorge Bandeira,  o Calça Branco, o "Moca", o "Mississipi", o João "Velha", o "Madre Deus" e os irmãos Nóvoa. 
O tipo que tinha a mania que nos treinava era o Malhado, que jogava nos seniores do Passos Manuel. Muitas vezes abandonava os treinos porque já não tinha paciência para nos aturar. Éramos uns anarquistas puros e duros. Dentro e fora do campo. Andávamos sempre em festas com as miúdas e nos copos à noite, na Trindade, e depois por essas boites fora que havia na Lisboa de antes do 25 de Abril. Ainda dizem que não havia Liberdade e diversão no tempo da Ditadura. Ah pois não...
Os jogos da nossa equipa tinham sempre uma claque jeitosa para nos apoiar. Apesar de sermos a maior corja de rebeldes e brincalhões que alguma vez entrou num recinto desportivo, dentro do campo éramos um osso muito duro de roer e mesmo o Sporting, o Benfica e o Belenenses viam-se aflitos para nos ganhar. Quando ganhavam...Os nossos estágios eram nos relvados do Parque Eduardo VII, onde nos enrolávamos com as miúdas por entre as sebes, os arbustos e o arvoredo e continuávamos pela noite dentro nos locais que já referi. 
Uma das nossas estrelas era o "Moca", um tipo alto, loiro, de cabelo "à David Luís" mas muito mais comprido, que andava sempre com um casaco de cabedal comprido, até meio das canelas, que era famoso em toda a Lisboa. O grande amigo "Moca" não tinha jeitinho nenhum para jogar Andebol, mas era indispensável a sua presença junto da "equipa" porque éramos todos muito unidos. 
Um dia tivemos uma ideia que deixou Lisboa em polvorosa. No tempo da Ditadura as equipas do Leste não jogavam em Portugal, a não ser nas competições europeias da UEFA. Então começámos a espalhar por toda a cidade que no dia X ia-mos apresentar na nossa equipa um jugoslavo. A notícia espalhou-se como fogo em palha seca por todo o lado. "Um jugoslavo na equipa do Passos Manuel". Até a PIDE andava de orelhas no ar a investigar como era possível termos um jogador oriundo de um país comunista na equipa. O reitor do Liceu chamou-nos e quis saber o que se passava. Dissemos-lhe que era segredo. O homem ficou desorientado porque nós só arranjávamos sarilhos. À medida que a data do jogo se aproximava o entusiasmo pelo jogo crescia e toda a gente nos perguntava quem era o tal jugoslavo. A malta dizia simplesmente que era um gigante loiro de nome "Mokka". 
Chegou o dia do jogo. A bicha para comprar bilhetes para o pavilhão do Campo de Ourique dava a volta ao quarteirão. O recinto estava a rebentar pelas costuras. Havia polícia por todo o lado. O nosso jogo era contra o CDUL, onde actuava a ponta-direita o Pais, sobrinho do director da PIDE, Silva Pais. Quando entrámos no campo o pavilhão explodiu em delírio "Passos, Passos, Passos Manuel ! Mokka ! Mokka ! Mokka!". Fizemos o aquecimento com o devido cuidado de passar a bola ao azelha do "Moca" de modo a que ele não a deixasse cair e o público não desconfiasse que era tudo um logro. Passávamos-lhe bolas fáceis que ele agarrava sem dificuldade. Sempre que isso acontecia o pavilhão começava aos urros "Mokka! Mokka! Mokka!". Obviamente que começámos o jogo sem o "Moca" no sete inicial. Mesmo sentando no banco ele despertava as atenções gerais. O público bem berrava "Mokka! Mokka! Mokka!" e a malta olhava uns para os outros, pensando na barraca onde nos tínhamos metido. Mas enfim, doidos como éramos fizemos o nosso jogo, até que a um minuto do fim do primeiro tempo o "Mokka" versão jugoslava do "Moca" entrou em campo. O pavilhão levantou-se numa ovação monumental. Estrondosa. Metê~mo-lo a jogar a "pivot" para lhe chegarem poucas bolas, claro, e o pessoal não desconfiar. Não se sabe bem como, a começar por ele, conseguiu apanhar uma bola mas ela escapou-lhe por trás das costas. Felizmente um dos nossos, o Carvalho, conseguiu agarrá-la e o pavilhão desatou aos berros com a "genialidade" do Mokka" e daquele passe certeiro sem olhar...
No intervalo, estávamos um bocado à rasca porque os milhares de espectadores queriam ver o "Mokka" e a gente sabia que iria ser um fiasco de todo o tamanho. No entanto, como nunca nos faltavam (más) ideias entrapámos um braço e uma perna ao "Moca" com ligaduras como se ele estivesse lesionado. Voltámos ao campo para a segunda parte, o pessoal da bancada viu o "Mokka" ("Moca") todo ligado e passou o tempo a gritar pelo nome dele e a apoiá-lo. Estávamos safos de uma "bronca" de todo o tamanho. Acabou o jogo e uma multidão invadiu o terreno para pedir autógrafos ao "Mokka", que inventou uma linguagem incompreensível e rabiscou uns papéis. 
Quando estávamos no banho vieram avisar-nos que a Polícia estava à nossa espera para lhes explicarmos umas "coisas" sobre o jugoslavo "Mokka". Vesti-mo-nos ainda molhados e pirá-mo-nos pela saída das traseiras e cada um fugiu para seu lado (bares, boites, discotecas). O caso-"Mokka" terminara. A Ditadura podia descansar...