quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Quando Maria Schneider alvoraçou um quartel

Morreu Maria Schneider. A intérprete de "O Último Tango em Paris", em que contracenou com Marlon Brando, foi um dos ícones da minha juventude. Ela era uma adolescente linda, não uma beleza de boneca perfeita mas de uma rebeldia fascinante. O filme foi exibido pouco depois da revolução do 25 de Abril e as cenas de nus, após 50 anos de feroz censura do Estado Novo, faziam furor entre um povo ávido de novidades e esgotavam as bilheteiras. "O Último Tango em Paris" era um "must", especialmente devido à cena de sexo anal em que Marlon Brando foi à cozinha buscar manteiga para facilitar a penetração no belo rabiosque da Maria Schneider.
Por essa altura, eu encontrava-me a cumprir o serviço militar na Escola Prática de Cavalaria, em Santarém. E o filme chegou lá com estrondosa publicidade. O cinema esgotou. Acho que até estava sobrelotado. A esmagadora maioria da ávida assistência era composta por militares que passavam dias seguidos sem pôr um olho numa mulher...quanto mais o "resto"...
O filme teve dois efeitos.
Antes da ponte sobre o Tejo para Almeirim havia um casebre com uma prostituta. Ninguém sabia o nome dela. Toda a gente a conhecia por "Valvolina". Quem não sabe o que é valvolina que procure no dicionário e terá uma ideia sobre as características e funções do produto...
Nessa noite, a "pobre" da "Valvolina" não teve mãos nem tudo o mais a medir para atender a clientela. Fez mais dinheiro desde o "The End" no ecrã até ao toque da alvorada do que no resto do ano.
Graças à Maria Schneider também o jargão de caserna mudou durante uns tempos. Em vez do muito habitual "vai levar no cu" utilizado normalmente pelos militares passou a ouvir-se "vê lá se queres levar com a manteiga" no alvoraçado quartel de onde saíra meses antes a coluna do capitão Salgueiro Maia para derrubar o regime de Marcello Caetano.
Aos 58 anos, depois de uma vida atribulada em que deixou a sua carreira esmorecer no droga e nas tentativas de suicídio, Maria Schneider "partiu para outra". Acompanham-na um pedacinho das minhas memórias.
Nunca te esquecerei. 

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