domingo, 13 de fevereiro de 2011

UMA NOITE DE PESADELO DE SÃO VALENTIM

Sempre tive sorte com as namoradas. Gostava delas e elas eram como eu gostava. Apresentada esta regra é óbvio que teria de existir uma excepção. Umas existem para confirmar as outras. Conhecê-mo-nos acidentalmente. Como sempre me acontece. Detesto apresentações. As relações assim nascidas não têm o picante do olhar furtivo, o sorriso insinuante, o toque acidental, a palavra improvisada no momento. Lá fomos contactando cada vez mais assiduamente até chegar o dia, ou melhor, a noite daquele jantar.
O ambiente era fascinante. As luzes tremelicavam na ondulação calma do Tejo.
No entanto, a "coisa" não correu bem. Pelo menos para mim. A lady resolveu entrar numa de gozo que de ironia nada tinha. Aguentei a pé firme, controlando o meu mau feitio que geralmente dispara nestas ocasiões. E a lady cada vez mais divertida à minha custa. Se ela soubesse o que me passava pela mente ter-se-ia levantado e ido embora sem mais. Não. Insistiu em levar até ao fim a sua auto-diversão.
Nos dias seguintes portei-me como um seduzido apesar de os dichotes da lady serem cada vez menos frequentes. A pouco e pouco ela foi mudando o seu comportamento comigo. Os meus (falsos) cuidados com ela encaminharam-na na via da paixão. Tinha caído na armadilha. Não me conhecia o suficiente para saber que quem me as faz paga-mas.
Era noite de São Valentim. Restaurantes repletos de parzinhos mais ou menos entrelaçados nos seus amores. Corremos Seca e Meca até encontrar um local muito aprazível. Desempenhei o meu papel de apaixonado com a capacidade notável de um actor profissional. Estava orgulhoso de mim próprio. Ela não desconfiava de nada. A inevitável noitada em casa dela seria a cena seguinte. Uma noite de São Valentim com todos os condimentos. Disse-lhe para subir enquanto ia arrumar o carro. Ela correu radiante para a porta e entrou. Esperei meia dúzia de minutos até ver luz dentro do apartamento. Saí do carro, tirei um envelope previamente escrito, coloquei-o dentro da caixa do correio dela. Arranquei com o automóvel e fui-me embora.
O meu telemóvel tocou. Era ela a perguntar-me onde estava e porquê a demora.
"Estou na tua caixa do correio. Vai lá e lê" -- respondi-lhe.
Desliguei.
Ela leu e deve ter gostado tanto do conteúdo da minha missiva que até hoje nunca mais me falou. Também tenho a certeza de que nunca mais deve ter gozado com alguém...
Sou Carneiro, pois claro !


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