domingo, 19 de junho de 2011

"A SOGRA" começava assim...



Voltas e mais voltas na cama. Os olhos da mulher irrequieta sobre o colchão, semicerrados na escuridão do quarto, ora se fixam na penumbra aveludada da janela, ora se perdem no negrume do ambiente que nem as paredes brancas consegue atenuar. Quase três horas da madrugada, indicam os dígitos vermelhos do relógio de sentinela na mesa-de-cabeceira. Números presenciais de uma insónia cúmplice entre o aparelho temporal e ela. A mulher estacionou os olhos por longos minutos naquele farol compassado que avança pelas horas fora. Decide-se. Empurra, com um gesto brusco e enfadado, o lençol de seda, creme, e o edredão estampado, negro e branco, para cima do marido adormecido. Apalpara-o na esperança de despertá-lo. Nem sinal de vida da cabeça ao sexo. Encolheu os ombros, conformada. Tacteia o roupão fino, dobrado sobre o estreito sofá, ao lado da cama. Já em pé sobre o fofo tapete enverga-o sobre a pele nua. Sai do quarto apressadamente como se estivesse sem o ar suficiente para se manter neste Mundo com vida. Antes de deixar a divisão espaçosa, agora a comprimir-se à sua volta como uma garra poderosa em torno de uma frágil presa, suspira profundamente. Atira os cabelos compridos para fora do roupão e praguejou baixinho ao tentar encontrar o puxador da porta. Apenas o ressonar compassado do marido lhe responde. Amaldiçoa-o sem palavras. Ao sair para o corredor, Sílvia sente-se como um animal em cativeiro devolvido à liberdade. Inspira com sofreguidão e o peito sobe no seu corpo e espreita para fora do roupão. Dirige-se para a sala. Liga um pequeno candeeiro de mesa. A luz fraca realça a alvura da sua pele, a qual contrasta violentamente com o azul ultramarino do roupão. Tira um copo do bar e enche-o de licor de uísque. Adiciona-lhe duas pedras de gelo. Envolve a base do copo com um guardanapo de papel vermelho. Estira-se no longo sofá de pele. Negro. O roupão desliza quando ela se aconchega numa posição fetal, um cotovelo apoiado no braço do sofá como os romanos em orgias ou banquetes, e descobre-lhe as pernas e um dos seios. Pousa o copo na carpete persa e aponta o comando ao televisor. Percorre vários canais e, por fim, tenta prestar atenção às figuras que se contorcem em movimentos de prazer no ecrã. 

O último comboio da Linha de Sintra, com partida do Rossio, cortava a noite como uma tesoura de alfaiate vai avançando, decidida pela mão firme que a dirige, pelo tecido. A luz fraca da carruagem da frente da composição quadrimotora ilumina pouco menos que os riscos de aço paralelos engolidos pelos rodados sôfregos de via. Poucos passageiros ocupam os bancos quando os ponteiros do relógio quase tocam as três da madrugada. Alguns jovens, rapazes e raparigas, são os mais exuberantes. Nativos suburbanos por excelência acabam de dar uma volta rápida pelos bares do Bairro Alto não muito concorridos num dia de semana. “Bué da loucos” com uns “shots” e umas cervejas compradas nas lojas de conveniência, mais em conta, antes de entrarem no mundo pluricolor dos espaços ribombantes de música mais ou menos “hard”. São horas de “bazar” para casa que amanhã, ou dentro de horas, é tempo de escola secundária. Uma das garotas, magra e loira, deixa o rapaz a seu lado, moreno e alto, sem fôlego com intermináveis beijo na boca. A amiga, mulata, não se interessa por nenhum dos cinco rapazes que completam o grupo. Apesar do assédio descarado ou implícito dos miúdos fascinados pela beleza exótica da rapariga. Dormitam os mais velhos, cabeça oscilando ritmada pelos balanços do comboio. Quatro maduros da “ferrugem” batem uma suecada sonora de comentários, ora de euforia ora de fúria com as asneiras do parceiro. Cada um considera-se o melhor jogador do Mundo e olham para todos os outros como idiotas chapados. Dois polícias percorrem os corredores, com aquele ar marcial sob o chapéu de “baseball”. As mãos atrás das costas são o seu suplemento de autoridade. A destoar do cenário nocturno, uma senhora, na casa dos sessenta, aparentava um ar de tia-avó saída de uma festa do “jet-set”. 

PS-Ainda não sei se vou terminar o romance...Que acham? 

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