quinta-feira, 16 de junho de 2011

Um(a) "MOKKA(DA)" na Ditadura !


Nos anos 70, o Liceu Passos Manuel tinha equipas de Andebol que disputavam os campeonatos Regionais de Lisboa e os Nacionais, quando conseguia o apuramento para esta fase. O ALPA, como eram conhecidas as equipas do liceu, chegou a sagrar-se campeão regional da I Divisão, batendo uma fabulosa equipa do Belenenses, onde sobressaíam os irmãos Mendes. Em 1970, houve uma cisão nas equipas de juniores e os "revoltosos", entre os quais eu, formámos a equipa C do Liceu Passos Manuel. Todos nós, os "rejeitados" do sistema, éramos não só companheiros de equipa mas também grandes amigos, amizade que ainda hoje se mantém entre os sobreviventes. Actuavam nesse "dream team", eu, o Castanheira (falecido aos 19 anos num desastre de automóvel), o Carvalho, o Nuno (faleceu por doença há meia dúzia de anos), os dois irmãos Graça, o Rodrigues, o Vítor "Conas", o Parracho, o Jorge Bandeira,  o Calça Branco, o "Moca", o "Mississipi", o João "Velha", o "Madre Deus" e os irmãos Nóvoa. 
O tipo que tinha a mania que nos treinava era o Malhado, que jogava nos seniores do Passos Manuel. Muitas vezes abandonava os treinos porque já não tinha paciência para nos aturar. Éramos uns anarquistas puros e duros. Dentro e fora do campo. Andávamos sempre em festas com as miúdas e nos copos à noite, na Trindade, e depois por essas boites fora que havia na Lisboa de antes do 25 de Abril. Ainda dizem que não havia Liberdade e diversão no tempo da Ditadura. Ah pois não...
Os jogos da nossa equipa tinham sempre uma claque jeitosa para nos apoiar. Apesar de sermos a maior corja de rebeldes e brincalhões que alguma vez entrou num recinto desportivo, dentro do campo éramos um osso muito duro de roer e mesmo o Sporting, o Benfica e o Belenenses viam-se aflitos para nos ganhar. Quando ganhavam...Os nossos estágios eram nos relvados do Parque Eduardo VII, onde nos enrolávamos com as miúdas por entre as sebes, os arbustos e o arvoredo e continuávamos pela noite dentro nos locais que já referi. 
Uma das nossas estrelas era o "Moca", um tipo alto, loiro, de cabelo "à David Luís" mas muito mais comprido, que andava sempre com um casaco de cabedal comprido, até meio das canelas, que era famoso em toda a Lisboa. O grande amigo "Moca" não tinha jeitinho nenhum para jogar Andebol, mas era indispensável a sua presença junto da "equipa" porque éramos todos muito unidos. 
Um dia tivemos uma ideia que deixou Lisboa em polvorosa. No tempo da Ditadura as equipas do Leste não jogavam em Portugal, a não ser nas competições europeias da UEFA. Então começámos a espalhar por toda a cidade que no dia X ia-mos apresentar na nossa equipa um jugoslavo. A notícia espalhou-se como fogo em palha seca por todo o lado. "Um jugoslavo na equipa do Passos Manuel". Até a PIDE andava de orelhas no ar a investigar como era possível termos um jogador oriundo de um país comunista na equipa. O reitor do Liceu chamou-nos e quis saber o que se passava. Dissemos-lhe que era segredo. O homem ficou desorientado porque nós só arranjávamos sarilhos. À medida que a data do jogo se aproximava o entusiasmo pelo jogo crescia e toda a gente nos perguntava quem era o tal jugoslavo. A malta dizia simplesmente que era um gigante loiro de nome "Mokka". 
Chegou o dia do jogo. A bicha para comprar bilhetes para o pavilhão do Campo de Ourique dava a volta ao quarteirão. O recinto estava a rebentar pelas costuras. Havia polícia por todo o lado. O nosso jogo era contra o CDUL, onde actuava a ponta-direita o Pais, sobrinho do director da PIDE, Silva Pais. Quando entrámos no campo o pavilhão explodiu em delírio "Passos, Passos, Passos Manuel ! Mokka ! Mokka ! Mokka!". Fizemos o aquecimento com o devido cuidado de passar a bola ao azelha do "Moca" de modo a que ele não a deixasse cair e o público não desconfiasse que era tudo um logro. Passávamos-lhe bolas fáceis que ele agarrava sem dificuldade. Sempre que isso acontecia o pavilhão começava aos urros "Mokka! Mokka! Mokka!". Obviamente que começámos o jogo sem o "Moca" no sete inicial. Mesmo sentando no banco ele despertava as atenções gerais. O público bem berrava "Mokka! Mokka! Mokka!" e a malta olhava uns para os outros, pensando na barraca onde nos tínhamos metido. Mas enfim, doidos como éramos fizemos o nosso jogo, até que a um minuto do fim do primeiro tempo o "Mokka" versão jugoslava do "Moca" entrou em campo. O pavilhão levantou-se numa ovação monumental. Estrondosa. Metê~mo-lo a jogar a "pivot" para lhe chegarem poucas bolas, claro, e o pessoal não desconfiar. Não se sabe bem como, a começar por ele, conseguiu apanhar uma bola mas ela escapou-lhe por trás das costas. Felizmente um dos nossos, o Carvalho, conseguiu agarrá-la e o pavilhão desatou aos berros com a "genialidade" do Mokka" e daquele passe certeiro sem olhar...
No intervalo, estávamos um bocado à rasca porque os milhares de espectadores queriam ver o "Mokka" e a gente sabia que iria ser um fiasco de todo o tamanho. No entanto, como nunca nos faltavam (más) ideias entrapámos um braço e uma perna ao "Moca" com ligaduras como se ele estivesse lesionado. Voltámos ao campo para a segunda parte, o pessoal da bancada viu o "Mokka" ("Moca") todo ligado e passou o tempo a gritar pelo nome dele e a apoiá-lo. Estávamos safos de uma "bronca" de todo o tamanho. Acabou o jogo e uma multidão invadiu o terreno para pedir autógrafos ao "Mokka", que inventou uma linguagem incompreensível e rabiscou uns papéis. 
Quando estávamos no banho vieram avisar-nos que a Polícia estava à nossa espera para lhes explicarmos umas "coisas" sobre o jugoslavo "Mokka". Vesti-mo-nos ainda molhados e pirá-mo-nos pela saída das traseiras e cada um fugiu para seu lado (bares, boites, discotecas). O caso-"Mokka" terminara. A Ditadura podia descansar...

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