quarta-feira, 27 de julho de 2011

PRESO no dia que SALAZAR morreu


Hoje, por mero acaso, reparei que faz não sei quantos anos que o Salazar morreu. E por causa do finamento do "Botas", eu e alguns amigos e amigas fomos presos, embora não malhássemos com os costados nas masmorras da PIDE. Por um triz. A malta amiga da altura, rapazes e raparigas à volta dos 15-16-17-18 anos reunimo-nos em casa dos pais da Lina, a aniversariante desse dia de Verão de 1970. Nos anos 60 e 70 estas comemorações eram normalmente à tarde na residência mais disponível. E foi o que fizemos. No rés-do-chão de um prédio da Rua de São Marçal, em Lisboa, organizámos a festa, apagámos as velas, cantámos os parabéns e chutámos os pais da Lina para dançarmos à vontade os "hits" dos 60's. 
Andava aqui o vosso amigo atracado à Cristina, a apertá-la mais do que a dançar o "Nights in White Satin" dos "Moody Blues", uma daquelas músicas das quais resultaram muitos bebés, e cada um enrolado com cada qual, quando bateram violentamente à porta do rés-do-chão. Eram dois polícias de serviço na Emissora Nacional, mesmo ao lado do prédio da Lina, que de imediato nos deram ordem de prisão, acusados, segundo eles, de estarmos "a comemorar a morte do Senhor Professor Oliveira Salazar". Ignorávamos  que o ditador tinha batido a bota mas mesmo que soubéssemos faríamos o mesmo, nesta idade nenhum de nós ligava à política, mas a situação piorou com a chegada de uma brigada da PIDE. Mandaram-nos esperar no passeio pela carrinha que nos levaria para a célebre sede da polícia política, na António Maria Cardoso. A coisa não estava mesmo para brincadeiras...No entanto, o pai do João "Gordo", agora administrador do Parque das Nações, era um dos donos do jornal "O Século" e moveu todas as suas influências para a rapaziada não ir de "saco", o que conseguiu após vários telefonemas, que isto de contrariar uma decisão da PIDE era uma tarefa quase impossível, até os convencer que estávamos apenas e só a festejar os anos da Lina e não a morte do "Senhor Professor Oliveira Salazar".  Ele responsabilizou-se por todos nós e foi por um fio que não acabámos na cadeia depois de estarmos sob prisão mais de uma hora no meio da rua. 
Depois de lamentarmos aos polícias o passamento do "Senhor Professor Oliveira Salazar", levámos o gira-discos e os respectivos "long-play" (que saudades do vinil...) para o terraço, bem longe dos olhares e ouvidos policiais, e voltei a agarrar-me à Cristina ao som melado de "A Whiter Shade of Pale", dos "Procol Harum". Que será feito da Cristina? 

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