segunda-feira, 1 de agosto de 2011

A BATALHA de ALCAFOZES há 201 anos



Faz hoje precisamente 201 anos que a III Invasão Francesa cruzou os cabeços e os barrocos graníticos da terra da minha mãe, Alcafozes, uma aldeia perdida numa franja da Beira Baixa, a menos de 10 kms em linda recta da fronteira com Espanha. Há muitos anos, quando estava sentado a descansar na parada da Escola Prática de Cavalaria, nessa altura aboletada em Santarém, reparei numa placa em azulejo por cima da porta de armas que memorizava os combates em que interveio a unidade. Nela constava uma inscrição que me sobressaltou "Batalha de Alcafozes - 1810". 
Desde então que tenho vasculhado, investigado, escrito, perguntado, à procura de pormenores sobre esse acontecimento histórico para aquele povoado, onde passei todas as "férias grandes" desde que nasci até aos 18-19 anos e visitas esporádicas posteriormente, mas sem grande sucesso. Em Portugal, infelizmente, não se dá a importância devida a certos acontecimentos relevantes na História do nosso velho País. Este tem sido um dos milhares de casos que permanecem anónimos, enterrados no esquecimento.
No entanto, o que não encontrei em por cá fui descobrir em França e em Inglaterra. Não são muitos os pormenores mas pelo menos acenderam uma luz ao fundo do túnel da indiferença para se aprofundar e desenvolver a matéria.
O Marechal André Massena, um dos comandantes preferidos de Napoleão, entrou em Portugal pela zona de Almeida, mas antes de atacar essa fortificação uma das colunas invasoras foi interceptado por forças portuguesas dos Regimentos de Cavalaria 5 e 11 em Salvaterra do Extremo, uma terra fronteiriça virada para Espanha, erguida sobre penhascos abruptos e altaneiros sobre o Rio Erges, afluente do Tejo. 
Após esse primeiro embate, a coluna napoleónica marchou sobre Alcafozes, onde encontrou a resistência do Regimento de Cavalaria 1, o antepassado da Escola Prática de Cavalaria. Segundo me contou um especialista de História Militar, era comum formarem-se grupos de guerrilheiros nas vilas e aldeias, normalmente liderados por padres, abades ou veteranos de conflitos anteriores, que armados de sachos, gadanhas, forquilhas, facas e navalhas espalhavam a morte e o terror dos soldados invasores de Intendência que se faziam acompanhar das mulheres e acabavam na sua maioria trespassados e degolados às mãos do Povo cioso de sua independência. 
Terá sido esse mesmo cenário de desgaste que Massena encontrou em Alcafozes, como aconteceu em centenas de cidades, vilas e aldeias de todo o País desde 1807 a 1810. 
Enquanto o valente Povo anónimo morria mas combatia pela independência de Portugal, a rainha e toda a corte, fidalgos, cortesãs e "intelectuais" fugiram para o Brasil, deixando expressa a ordem em decreto-real que não se resistisse ao invasor. Felizmente, como sempre, foi o Povo quem mais ordenou e resistiu heroicamente, apesar dos massacres de Castelo Branco, Évora e tantos outros que não vergaram a vigorosa vontade popular.
Os livros de História de Portugal passam normalmente muito superficialmente pelas Invasões Francesas por uma razão facilmente compreensível. Napoleão e a classe dominante gaulesa que sobressaiu após a Revolução Francesa integravam a Maçonaria. A "Liberdade, Igualdade e Fraternidade" propostas pelos revolucionários tinha sido afogada em sangue pelo Grande Terror instigado pelas lojas maçónicas. Em Portugal, os maçons abriram os braços ao invasor e colaboraram com Junot, Soul e Massena na tentativa de subjugar o País e proibiram as manifestações religiosas populares, as missas e actos de fé e pilharam mosteiros, conventos, igrejas, não raras vezes assassinando os seus ocupantes. Tal como as purgas de Estaline e o holocausto de Hitler um século depois. 
Dez mil portugueses associaram-se e integraram o exército napoleónico com a designação de Legião Portuguesa. Destes traidores, porém, apenas menos de 100 sobreviveram e regressaram a Portugal, deixando os seus cadáveres espalhados pelos campos de batalha da Rússia, Prússia, Áustria, Polónia, etc. Os maçons colaboracionistas e grande parte dos miseráveis restos da Legião Portuguesa foram executados pelo Povo implacável por quem os traiu. 
Ainda hoje a Maçonaria nacional omite milhares de episódios nos Livros de História e evita que se aprofunde ou discuta um dos momentos mais marcantes da manutenção da independência lusitana. 
Mas eu não esqueço que faz hoje 201 anos que na aldeia dos meus heróicos ascendentes  se travou a Batalha de Alcafozes. 


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