domingo, 27 de novembro de 2011

O FADO não me deixa saudades!



Nasci no Bairro Alto nos anos 50 e vivi por lá 30 anos e quase outro tanto tempo a trabalhar. Ainda não tinha sido parido pela minha mãe e já deitava Fado pelos ouvidos. Farto. Fujo de ouvir o Fado, embora conheça quase todas as letras tantas as vezes era obrigado a ouvi-lo sem querer, porque me recorda as ruas e vielas sujas de lixo, os candeeiros públicos de luminosidade estéril acesos pelo caga-lume, as lâmpadas de 20 "velas" nas casas velhas de paredes estaladiças e jarro e lavatório para o "banho", a telefonia a berrar "Angola é Nossa", mais a Amália, o Marceneiro, o Calvário, a Simone e outros "canários" das ondas de rádio, as mulheres da vida e venderem a sua vida de mulher, os "pintas" de poupa alçada como a onda de um tsunami e anel grosso no dedo mindinho, os pregões dos vendedores ambulantes em peregrinação sobre cascas de laranja, escarros, toros de hortaliça e outros detritos, as músicas deprimentes expelidas por máquinas de discos que entravam em palco a troco de uma moeda, os arraiais de porrada entre militares mobilizados para o Ultramar, os chulos e a polícia militar e civil, as vozes roucas masculinas e femininas do calão que se sobrepunham às badaladas dos sinos da Igreja de São Roque, mais os ruídos sonoros dos fadistas das tascas que trinavam amores e traições, juras de amor e mortes sem sentido. 

Não, decididamente o fado não me traz boas memórias. Pelo contrário. Dispenso.
É Património Imaterial da Humanidade? Parabéns ao Fado, mas continuo e evitá-lo...

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