terça-feira, 17 de maio de 2011

A chave de parafusos assassina !


Hoje volto às histórias rocambolescas do meu sítio. Um dos lugares do Mundo onde acontecem as cenas mais estranhas que se possam imaginar sem que ninguém ache anormal. Há poucos anos existia um café muito agradável com uma excelente esplanada num lugar muito amplo não longe da minha casa. As pessoas conheciam-se mais ou menos e ali se passavam excelentes tardes e óptimos serões. 
Entre os muitos frequentadores, havia um sujeito, alto, magro, na casa dos trinta e muitos ou quarenta e poucos anos, barba escura, que se sentava sempre sozinho à mesa, bebia um café e um cálice de uísque. Só abria a boca para pedir estes dois ingredientes e passava o resto do tempo mudo como uma esfinge milenar egípcia. 
Era um fim de tarde quente de Verão. Eu estava numa mesa e ele noutra. A empregada limpava o chão do interior do café com uma esfregona. Apesar do calor, o cliente "mudo" envergava um blusão castanho de pele, o que, só de olhar para ele, causava suores.
De repente, ouvi uma voz dar-me as "boas tardes". Levantei os olhos do telemóvel onde procurava o contacto de uma amiga. Era o "mudo". 
-- Boa tarde -- respondi-lhe, admirado por ver semelhante personagem dirigir-me a palavra. 
-- Posso pedir-lhe um favor ? -- perguntou-me o "barbudo". 
-- Se puder... -- disse-lhe, pensando que ele me iria pedir lume ou qualquer coisa do género porque ele tinha aspecto de ser uma pessoa bem instalada na vida e não um vagabundo que andasse a cravar dinheiro ou cigarros.
-- Olhe -- explicou-me numa voz muito serena -- Quero matar a minha mulher mas só tenho aqui uma chave de parafusos. O senhor por acaso não sabe onde posso arranjar uma pistola ou uma faca? 
Se eu não fosse um tipo relativamente vivido e habituado a situações inesperadas confesso que me tinha admirado ou ficado atrapalhado com esta inusitada questão. 
-- Um isqueiro ainda lhe posso arranjar, pistolas e facas por acaso hoje não trouxe... -- respondi-lhe com a mesma serenidade.  
-- Obrigado -- agradeceu-me com a toda a lisura -- Então vou ali à loja onde ela trabalha matá-la com a chave de parafusos. 
-- Ok, boa tarde ! -- o que havia de dizer-lhe?...
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Soube posteriormente que ele entrou no estabelecimento onde a esposa dele trabalhava, puxou da chave de parafusos para espetar na mulher, mas o dono antecipou-se ao crime em perspectiva e partiu-lhe a cana do nariz com uma estatueta de bronze que ornamentava o balcão. De seguida, voltou ao café onde eu estivera e a Dª Fátima, que fervia em pouca água, ainda lhe deu com a esfregona na cara ensanguentada  ao ver o chão que  acabara de limpar cheio de manchas vermelhas. Reencontrei-o umas duas semanas depois com o rosto todo ligado. Desta vez não me falou...
Há dias em que não se pode sair de casa para matar ninguém...


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